Caminho do Imigrante – parte 1

(peco desculpas pela falta de acentos!)

No dia 29 de maio eu comecei uma caminhada desde a cidade de Sasabe no estado de Sonora no Mexico ate Tucson, Arizona. Foram 120 kilometros em 7 dias.

Essa caminhada ocorre todos os anos e se chama “Caminho do Imigrante”. Essa caminhada tem como objectivo reunir um grupo de pessoas que se interessam por assuntos de imigracao – ativistas, estudantes, academicos, professores, politicos, lideres religiosos ou pessoas que simplesmente querem participar — em uma jornada por onde muitos imigrantes passaram e continuam a passar para chegar a cidades como Tucson e Phoenix no Arizona. O objetivo nao e dizer que a caminhada e exatamente a viagem dos imigrantes ou dizer que nos passamos pelas mesmas dificuldades que imigrantes passam. De jeito nenhum. Isso seria um exagero, uma mentira e uma falta de respeito. A organizacao chamada “Derechos Humanos” lidera um grupo de outras 15 organizacoes que fazem dessa caminhada uma realidade todo ano. Eles conseguem recursos, comida e transporte com doacoes de pessoas, igrejas e outras organizacoes. Esse ano (2011) foi a oitava vez que essa caminhada ocorreu. Eu fui parte de um grupo de 65 participantes entre as idades de 18 e 72 anos e mais de 10 organizadores.

Eu resolvi participar dessa caminhada por varias razoes. A principal razao foi o fato da minha pesquisa para tese de doutorado ser sobre as consequencias da imigracao mexicana aos Estados Unidos. As mulheres que participam da minha pesquisa relataram diversas vezes como a caminhada delas desde o Mexico ate Tucson e depois Phoenix no Arizona ocorreu. Eu senti que precisava pelo menos dividir o mesmo espaco onde elas caminharam. Sentir o calor, o sol o deserto do Arizona. 45 graus era um dia normal caminhando no deserto. Eu tambem queria conhecer essas organizacoes, esses ativistas, os lideres religiosos, padres, freiras, samaritanos pessoas que dedicam a vida a ajuda humanitaria. Eu fui sem conhecer ninguem e sem saber muito sobre como seria a experiencia do dia-dia. Eu sabia que iriamos acampar no meio do nada todos os dias e iriamos ter um banho durante a semana. Eu nunca acampei na vida. Levei barraca, saco de dormir, barras de cereal, lencos humidecidos e meu diario.

No primeiro dia andamos 12 kilometros. Comecamos em Sasabe no Mexico e entramos nos Estados Unidos. Antes de entrar nos Estados Unidos houve uma cerimonia em uma igreja onde as freiras fizeram tamales (uma das minhas comidas mexicanas preferidas) e rezaram para os muitos que tentam cruzar essa fronteira todos os dias. Uma das visoes mais dificeis para mim ocorreu ao sair da igreja. Ao lado da igreja eu vi um grupo de homens jovens com mochilas e garrafas de plastico pretas (a cor preta e importante pois helicopteros conseguem ver mais facil quando a garrafa de agua e translucida). Eles estavam reunidos pois comecariam suas proprias jornadas em algumas horas. Diferente deles eu caminhava com meu passaporte, meu visto, minha prova de existencia e de legalidade. Eu nao uso a palavra ilegal para descrever esses imigrantes, pois acredito que nenhum ser humano e ilegal, ele pode ESTAR autorizado ou nao. Mas nao e ilegal. A maioria dos imigrantes  caminha com medo. Medo da patrulha que cerca a fronteira. Medo de serem apreendidos e deportados. A maioria das pessoas no meu grupo eram americanos. Quando eu tive que mostrar meu passaporte da imigracao americana na fronteira eu comecei a suar e meu coracao comecou a bater mais rapido. Eu nao entendi porque. Meu visto estava ali no meu passaporte. Mas senti um desconforto, uma sensacao de nao ser bem-vinda. Eu olhei para tras e distante vi o grupo de jovens que tentaria sorte horas depois. Eu pensei, o que sera que eles acham desse grupo? Sera que eles acham que estamos desrespeitando a realidade deles?

Chegamos ao lugar onde dormiriamos as 5 da tarde. De 42 graus a temperatura caiu para 14 graus. A minha primeira noite dormindo dentro da minha barraca rodiada por outras 30 barracas tive muito frio. Quase nao consegui dormir porque nao estava preparada para sentir tanto frio. O meu primeiro pensamento foi: eu tenho barraca, saco de dormir, meias, moletom e eu estou congelando. Eu imaginei a Sonia, Pilar, Maria com a roupa do corpo cruzando o deserto. Eu lembro de ficar irritada com o fato de que as condicoes da caminhada, o conforto que eu tive, as outras mulheres e criancas nao tiveram. Mais de 300 pessoas morreram no deserto do Arizona tentando chegar as cidades do Estados Unidos no ultimo ano. Ela morrem por excesso de frio, excesso de calor, falta de agua, comida, bolhas nos pes, caimbra! Sao mortes estupidas. Independente de posicoes politicas contra ou a favor de imigracao, acho que todos podemos concordar que essas mortes podem e devem ser evitadas.

Minha barraca

Amanha eu continuo com as historias dessa caminhada, que com certeza impactou a minha visao sobre vida, familias separadas, dificuldades e esperanca.

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4 thoughts on “Caminho do Imigrante – parte 1

  1. Estou fascinado com a narrativa real e sem confetes.Conheco alguns Brasileiros que moram aqui na Florida que vieram pelo mesmo percurso.

  2. Gabi! Estou adorando! Sempre tive curiosidade sobre esta jornada e já tive contato com diferentes tipos imigrantes que cruzaram a fronteira americana das mais diversas formas. Compartilho os mesmos sentimentos e é muito interessante em ter mais um ponto de vista, totalmente impírico, desta aventura.
    Quero mais!
    Beijos,
    Olly

  3. Gabi, o seu relato é pessoal e muito honesto. Acho importante a discussão iniciada aqui: “Independente de posicoes politicas contra ou a favor de imigracao, acho que todos podemos concordar que essas mortes podem e devem ser evitadas.” Beijos.

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