Caminho do Imigrante Parte 2

Essa é a terceira vez que eu sento para escrever a segunda parte desse relato e me minha mente não funciona. A sensação que tenho é a de não conseguir colocar em palavras os detalhes dessa experiência tão rica. De quaquer forma, vou tentar.

No segundo e terceiro dia andamos mais ou menos 22 a 24 kilômetros em um calor seco chegando a 42-44 graus. Por 4 dias acampamos no meio do deserto e nos últimos 3 dias acampamos mais perto da estrada onde a fiscalização é muito maior. Ainda no primeiro dia depois de cruzarmos a fronteira entre Arizona e México o grupo inteiro estava andando em fila única. Um na frente do outro. De repende um homem de boné, óculos escuros dirigindo uma pickup começa a gritar com grupo: “Vocês estão fazendo o caminho do imigrante? Porque vocês não voltam para o subúrbio americano de onde saíram! Vocês não sabem nada sobre o que acontecem aqui, esses imigrantes ou melhor dizendo invasores, entram no meu país e deixam o meu deserto imundo! Eles espalham lixo por toda a minha terra!”

Eu confesso que fiquei impressionada. A cada 5 km o grupo alternava entre silêncio e conversa. Para a minha frustração essa perna da caminhada foi em silêncio. Eu precisava conversar com alguém, mas tive que esperar. Cinco minutos depois o mesmo homem passa dirigindo o carro dele acelerando e quase encostando nos membros do grupo. Este homem para o carro, desce e vai até o porta-malas e tira uma arma. Eu não entendo de armas, mas ela era grande, como se fosse um rifle. Ele ergue a arma, apontando para o céu e grita: “Eu vou defender meu país como venho fazendo a muito tempo! Vou continuar defendendo meu país desse invasores sujos. Vocês, suburbanos, voltem para suas casas!”

Um detalhe importante é que “suburbs” ou como eu traduzi aqui “suburbio” nos Estados Unidos quer dizer lugares que estão a 30-40 minutos de cidades principais como NY, LA, Chicago, São Francisco, Miami etc e são casas ENORMES e as pessoas que normalmente moram lá são classe média alta e classe alta. São pessoas, em sua maioria, brancas e protestantes. Então existe uma conotação de “vocês tem dinheiro, vivem longe e acham que podem chegar aqui e entender a realidade”. Esse homem não poderia estar mais incorreto. A maioria das pessoas que caminharam comigo são ativistas e acadêmicos que vivem na região no Arizona ou Colorado ou California e moram em cidades. A maioria das pessoas faz parte da classe média americana.

Para mim caminhar no deserto foi mais fácil do que caminhar no asfalto. No deserto ás vezes a areia era fofa, mudava para para areia dura ou simplesmente barro.  No segundo dia em uma parada para descanso eu fui ao banheiro. E banheiro nesse tipo de viagem é… “encontre uma árvore”. Enfim, quando eu estava voltando para onde a comida estava e as pessoas estavam descansando na sombra percebi uma dor na minha canela. Algo queimando! Quando eu olho para baixo tem um cacto grudado na minha perna. Em espanhol esse tipo de cactus é conhecido como “Cholla” em inglês eles chamam de “jumping cactus”. Literalmente é uma bola verde de espinhos que ao entrar em contato, mesmo que por um segundo, com a sua pele: GRUDA!

Se você tentar tirar com o dedo ela gruda no seu dedo. Os espinhos vão dentro da pele e fazem com que a parte do corpo em que a cholla grudou inche. Tinham duas grudadas na minha bota e uma na minha canela. A líder do grupo médico logo viu o que estava acontecendo e veio me ajudar. Ela pegou dois galhos e removeu a cholla. Depois com uma pinça ela removeu os espinhos que estavam mais profundos. Eu fiquei com um roxo na perna e decidi não andar mais de shorts.

Ao chegar no acampamento ao redor do meio dia, montamos as barracas e a sombra e almoçamos. Um pouco mais tarde antes do jantar, uma 4 ou 5 chegou um caminhão de uma organização chamada “Samaritanos do Deserto” com galões de água e uma mangueira. Esse caminhão vinha quase todos os dias para encher os galões de água vazios que eram consumidos diariamente. Era um casal que sempre trazia a água e na terça-feira (segundo dia) a esposa ofereceu lavar o cabelo de pessoas que quisessem no grupo. Eu entrei na fila na hora! Sem banho, lavar o cabelo para mim era um prêmio. Essa mulher trouxe shampoo e lavou o cabelo de mais de 50 pessoas. E não foi só jogar uma água, foi lavar com carinho, com vontade. Um por um ela lavou nossos cabelos e sempre dizendo: “o que voces estão fazendo é muito importante, isso é o mínimo que eu posso fazer”. Eu lembro de me emocionar em ver como uma pessoa podia ter contato físico com tantos desconhecidos, mas parecer que nos conhecia a muito tempo.

Esse tipo de situação ocorreu em vários momentos, pois todos os dias alguma organização ou igreja trazia comida para a gente. Eles traziam comidas deliciosas, feitas por eles em casa. Senhoras de 70 e 80 anos que não podiam mais caminhar, queriam participar de alguma forma e um dia nos trouxeram sorvete. Sempre nos recebiam com abraços e queriam saber como nós estavamos nos sentindo. Eu nunca imaginei que pessoas desconhecidas pudessem se tornar tão próximas em tão pouco tempo. Um cuidando do outro. Quando tiraram o cacto que estava grudado na minha perna todos vieram saber como eu estava, uma amiga colocou ante-inflamatorio (uma pomada) na minha perna e outra foi buscar água para mim enquanto eu descansava a perna machucada. Em nenhum momento eu me senti só ou desamparada, como a maioria dos imigrantes que cruzam se sentem. Em nenhum momento eu senti que seria abandonada, ou não teria comida ou água, como muitas das mulheres e crianças que eu conversei se sentiram.

Mas ao mesmo tempo na mesma noite eu senti medo. Eram 2 da manhã e eu estava dormindo na minha barraca quando escuto coiotes uivando. Um monte. Uma turma de coiotes. Parecia um choro e no outro dia descubri que era um “chamado”. Eu entrei em pânico dentro da minha barraca. Eu só pensava nas barras de cereal dentro da minha mala que eles sentiriam o cheiro! Eu lembrei da Pilar. A Pilar foi uma das crianças que eu entrevistei no México e depois nos Estados Unidos, ela aos treze anos cruzou o deserto. Ela me disse que todas ás vezes que ela escutava os coiotes ela achava que ia ser devorada! Eu nunca rezei o Pai Nosso com tanta força. E eu não rezo muito. Nos próximos dias eu tirei um aranha de dentro da minha barraca, vi duas cobras e escorpiões. Mas o medo foi substituído pela força que os meus colegas me davam, pela coragem das muitas pessoas que tentaram essa jornada e acreditem ou não pela sensação de proteção divina de que tudo ficaria bem.

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Caminho do Imigrante – parte 1

(peco desculpas pela falta de acentos!)

No dia 29 de maio eu comecei uma caminhada desde a cidade de Sasabe no estado de Sonora no Mexico ate Tucson, Arizona. Foram 120 kilometros em 7 dias.

Essa caminhada ocorre todos os anos e se chama “Caminho do Imigrante”. Essa caminhada tem como objectivo reunir um grupo de pessoas que se interessam por assuntos de imigracao – ativistas, estudantes, academicos, professores, politicos, lideres religiosos ou pessoas que simplesmente querem participar — em uma jornada por onde muitos imigrantes passaram e continuam a passar para chegar a cidades como Tucson e Phoenix no Arizona. O objetivo nao e dizer que a caminhada e exatamente a viagem dos imigrantes ou dizer que nos passamos pelas mesmas dificuldades que imigrantes passam. De jeito nenhum. Isso seria um exagero, uma mentira e uma falta de respeito. A organizacao chamada “Derechos Humanos” lidera um grupo de outras 15 organizacoes que fazem dessa caminhada uma realidade todo ano. Eles conseguem recursos, comida e transporte com doacoes de pessoas, igrejas e outras organizacoes. Esse ano (2011) foi a oitava vez que essa caminhada ocorreu. Eu fui parte de um grupo de 65 participantes entre as idades de 18 e 72 anos e mais de 10 organizadores.

Eu resolvi participar dessa caminhada por varias razoes. A principal razao foi o fato da minha pesquisa para tese de doutorado ser sobre as consequencias da imigracao mexicana aos Estados Unidos. As mulheres que participam da minha pesquisa relataram diversas vezes como a caminhada delas desde o Mexico ate Tucson e depois Phoenix no Arizona ocorreu. Eu senti que precisava pelo menos dividir o mesmo espaco onde elas caminharam. Sentir o calor, o sol o deserto do Arizona. 45 graus era um dia normal caminhando no deserto. Eu tambem queria conhecer essas organizacoes, esses ativistas, os lideres religiosos, padres, freiras, samaritanos pessoas que dedicam a vida a ajuda humanitaria. Eu fui sem conhecer ninguem e sem saber muito sobre como seria a experiencia do dia-dia. Eu sabia que iriamos acampar no meio do nada todos os dias e iriamos ter um banho durante a semana. Eu nunca acampei na vida. Levei barraca, saco de dormir, barras de cereal, lencos humidecidos e meu diario.

No primeiro dia andamos 12 kilometros. Comecamos em Sasabe no Mexico e entramos nos Estados Unidos. Antes de entrar nos Estados Unidos houve uma cerimonia em uma igreja onde as freiras fizeram tamales (uma das minhas comidas mexicanas preferidas) e rezaram para os muitos que tentam cruzar essa fronteira todos os dias. Uma das visoes mais dificeis para mim ocorreu ao sair da igreja. Ao lado da igreja eu vi um grupo de homens jovens com mochilas e garrafas de plastico pretas (a cor preta e importante pois helicopteros conseguem ver mais facil quando a garrafa de agua e translucida). Eles estavam reunidos pois comecariam suas proprias jornadas em algumas horas. Diferente deles eu caminhava com meu passaporte, meu visto, minha prova de existencia e de legalidade. Eu nao uso a palavra ilegal para descrever esses imigrantes, pois acredito que nenhum ser humano e ilegal, ele pode ESTAR autorizado ou nao. Mas nao e ilegal. A maioria dos imigrantes  caminha com medo. Medo da patrulha que cerca a fronteira. Medo de serem apreendidos e deportados. A maioria das pessoas no meu grupo eram americanos. Quando eu tive que mostrar meu passaporte da imigracao americana na fronteira eu comecei a suar e meu coracao comecou a bater mais rapido. Eu nao entendi porque. Meu visto estava ali no meu passaporte. Mas senti um desconforto, uma sensacao de nao ser bem-vinda. Eu olhei para tras e distante vi o grupo de jovens que tentaria sorte horas depois. Eu pensei, o que sera que eles acham desse grupo? Sera que eles acham que estamos desrespeitando a realidade deles?

Chegamos ao lugar onde dormiriamos as 5 da tarde. De 42 graus a temperatura caiu para 14 graus. A minha primeira noite dormindo dentro da minha barraca rodiada por outras 30 barracas tive muito frio. Quase nao consegui dormir porque nao estava preparada para sentir tanto frio. O meu primeiro pensamento foi: eu tenho barraca, saco de dormir, meias, moletom e eu estou congelando. Eu imaginei a Sonia, Pilar, Maria com a roupa do corpo cruzando o deserto. Eu lembro de ficar irritada com o fato de que as condicoes da caminhada, o conforto que eu tive, as outras mulheres e criancas nao tiveram. Mais de 300 pessoas morreram no deserto do Arizona tentando chegar as cidades do Estados Unidos no ultimo ano. Ela morrem por excesso de frio, excesso de calor, falta de agua, comida, bolhas nos pes, caimbra! Sao mortes estupidas. Independente de posicoes politicas contra ou a favor de imigracao, acho que todos podemos concordar que essas mortes podem e devem ser evitadas.

Minha barraca

Amanha eu continuo com as historias dessa caminhada, que com certeza impactou a minha visao sobre vida, familias separadas, dificuldades e esperanca.